Antigamente quando minha avózinha ia ao Doutor, era porque alguma coisa ia mal, o joanete doía, a coluna travava, o coração palpitava ou as pernas faltavam. Ela esperava a doença bater à porta para só então procurar ajuda no postinho do INAMPS. Ela tinha DIREITO À SAÚDE, porque meu avô possuía carteira assinada e pagava o INPS, ainda bem, senão tinha que procurar alguma clínica pública filantrópica ou pagar a consulta. Era assim mesmo, e isso nem faz tanto tempo assim, somente 21 anos atrás.
Lá em 1988, a Assembléia Geral Constituinte, mudou isso tudo e promulgou a nossa Constituição Federal. E, agora, Saúde é DIREITO DE TODOS e DEVER DO ESTADO, não apenas de que tem carteira assinada. Homens e mulheres muito inteligentes, chamados Sanitaristas, propuseram a criação de um sistema de saúde novo, um que não deixasse ninguém de fora. Que cuidasse desde um probleminha de saúde até um problemão. Sabiam que este sistema teria muitas dificuldades, várias limitações e desafios maiores ainda.
Esse sistema de saúde novo é o nosso SUS (Sistema Único de Saúde). Este jovem de 21 anos já passou por muita coisa nesse período e ainda tem uma longa estrada pela frente, espero realmente ver um dia esse sistema consolidado e funcionando conforme todos esperamos. Ao longo desse tempo ele se transformou, modificou sua visão de saúde e de se fazer saúde, e hoje, temos um modelo de assistência à saúde diferente. Ter saúde, como já disse uma vez por aqui, é muito mais que a ausência de doença. É um completo estado de bem estar, e nesse sentido o SUS tem trabalhado bastante.
O SUS está em quase todos os lugares, mesmo que não o vejamos. Costumamos chamá-lo de “O SUS que não se vê”, mesmo quem diga nunca ter utilizado os serviços do SUS, em algum momento, sem saber está se beneficiando de alguma ação ou projeto do SUS.
Infelizmente o sistema não se curou de males que o atingem desde sua criação: subfinanciamento e má gestão. A “crise do SUS” está na moda. Mas se prestarmos atenção, vamos ver que a crise do SUS não é a crise da saúde como um todo ou do sistema, é mais do que tudo a crise da assistência médico-hospitalar. Sabem por quê? Porque nossa idéia de saúde ainda é aquela da minha avozinha que esperava adoecer para só então tratar. Para piorar, a informação que nos é passada por diferentes meios de comunicação, aqui podemos incluir as fofocas, exploram somente as dificuldades e falhas. São informações que não ajudam a melhorar o SUS, possuem fundo degradante e ignorante, baseadas em falação reclamante que apenas afastam as pessoas do SUS a as fazem pensar que o SUS é um sistema de saúde para pobres. Isso é mentira! O SUS é um sistema de saúde para todos, sem distinção de classe, credo, raça, se está empregado ou desempregado.
O SUS tem muito a melhorar, temos muitas falhas, mas a construção está acontecendo, é coletiva e precisa da participação positiva e responsável de todos.
Aqui na Ilha Grande, temos o SPA (Serviço de Pronto Atendimento) que funciona 24 horas, cuidando dos casos de emergência da população. Também temos a ESF (Estratégia de Saúde da Família) que funciona de uma forma diferente, aqui uma equipe de profissionais de saúde interage para cuidar da saúde da comunidade. Esses profissionais: enfermeira, médico, auxiliar de enfermagem, agente comunitário de saúde e equipe de saúde bucal, dentista e auxiliar de saúde bucal, não só fazem atendimento direto à população, mas criam oportunidades para visitar residências, visitar a escola e comércios, reunir-se com a comunidade para falar de saúde, participam de campanhas de vacinação e outras tantas, etc.
E temos também o NASF (Núcleo de Apoio à Saúde da Família), mais letrinhas para a nossa sopa. O NASF é novíssimo, criado pelo Ministério da Saúde em 2008, também é uma equipe de profissionais de diferentes especialidades, para APOIAR e REFORÇAR, aumentar a abrangência e a resolubilidade dos problemas. Nosso foco é o coletivo, é a educação e a promoção da saúde, é conscientizar as pessoas que quanto maior sua responsabilidade com a saúde, menos se adoece, previne-se as complicações, e evitam-se as temidas seqüelas. Sonhamos todos os dias com um amanhã melhor que o hoje.
Sou um defensor otimista do SUS, e acredito na sua ideologia. Gostaria de encerrar esta matéria dizendo que tenho uma obsessão, que é apoiar o fortalecimento da Estratégia de Saúde da Família na Ilha Grande. Reconheço que isso é um problema, mas o fato de ser um problema não nos impede de fazer com que isso esteja no centro de nosso planejamento.
Dr. Dennys Ferreira - Fisioterapeuta.
(Matéria publicada no Jornal O Eco da Ilha Grande, edição de junho de 2011)
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